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Duas barras e uma escada de concreto


Biselli & Katchborian Arquitetos Associados: Residência, São Paulo

DUAS BARRAS E UMA ESCADA DE CONCRETO

UMA OBSERVAÇÃO MAIS ACURADA MOSTRARÁ SEMELHANÇAS ENTRE A ESCULTÓRICA ESCADA DA RESIDÊNCIA PROJETADA POR BISELLI & KATCHBORIAN NOS ARREDORES DE SÃO PAULO E A PEÇA HELICOIDAL QUE SE TORNOU PROTAGONISTA NO EDIFÍCIO DO MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES, EM BRASÍLIA, PROJETADO POR OSCAR NIEMEYER. NA MORADIA PAULISTA, ELA CONECTA O ESTAR À PASSARELA QUE UNE OS VOLUMES DE ACOMODAÇÃO DO PROGRAMA.

Imagens daquela que é uma das mais (se não a mais) memoráveis escadas da moderna arquitetura brasileira - a peça helicoidal existente no Palácio do Itamaraty, em Brasília, viabilizada por Joaquim Cardozo e Milton Ramos para a sede do Ministério das Relações Exteriores, criada por Oscar Niemeyer - foram exibidas para Mario Biselli logo nas primeiras reuniões. Era, de acordo com o contratante do projeto para uma moradia em condomínio fechado nos arredores da capital paulista, o tipo de escada que o escritório poderia desenhar para sua casa. A partir do apreço do cliente pela plasticidade daquele elemento, Biselli e Artur Katchborian - sócios no estúdio que acumula um vasto e premiado currículo de projetos residenciais, embora sua experiência seja bastante eclética em termos de programas - estabeleceram que a residência deveria contar com espaço social de amplo pé-direito para comportar a escada. Foi também um pouco em decorrência dela que o volume social da edificação resultou mais alto que largo, explica Biselli.

Embora não possuísse noções aprofundadas de arquitetura, segundo Biselli, o cliente conhecia projetos residenciais de autoria do escritório e identificara-se com o repertório dele. Numa análise rápida e simplificada, pode-se dizer que a produção de Biselli e Katchborian descende da escola paulista, vertente da moderna arquitetura brasileira na qual a solução estrutural apresenta peso igual (ou até maior) que a composição concreto/vidro na qual ela mais se expressa. Na mesma época dessa contratação, o escritório estava comprometido com o desenvolvimento do projeto para o conjunto habitacional de Heliópolis, comunidade carente da zona sudeste da capital paulista. O arquiteto registra essa informação para refletir acerca de indagação por ele mesmo formulada: questões ideológicas podem repercutir na arquitetura, uma vez que o estúdio, no caso, atendia demandas de estratos sociais contrastantes? Dúvida que Biselli mesmo desfaz ao ponderar que “a principal preocupação do arquiteto é com seu ofício”. E domínio do ofício foi o que o ajudou, conforme relata, a enfrentar um lote de difícil topografia, com desníveis acentuados (“havia um grotão na entrada”) e conformação irregular, propondo um partido que considera simples. “A residência é formada por dois volumes dispostos de acordo com a geometria não convencional do terreno”, registra Biselli no memorial do projeto.

O bloco principal contém salas de estar e de almoço, além do escritório, e se caracteriza pelo uso intensivo do vidro, criando uma relação de transparência e interação com o entorno que, numa casa, só se consegue estabelecer por se tratar de um condomínio fechado. Se do ponto de vista urbano esse tipo de empreendimento é apontado como negação da cidade, por outro lado é apenas neles que a arquitetura residencial não precisa esconder?se atrás de verdadeiras muralhas, pondera Biselli.

O concreto aparente se destaca no outro volume (no qual estão sala de jantar, cozinha gourmet, cozinha e as quatro suítes), sobretudo na porção que se interpõe ao bloco principal e dele se projeta. A forma como ambos se relacionam cria uma organização triangular, com o espaço livre entre eles sendo ocupado pela área de lazer e piscina. Quanto à solução estrutural, detalha Biselli, os dois são suportados por vigas e pilares de concreto armado protendido, material que permite reduzir pontos de apoio, resultando em vãos e balanços estruturais generosos. Exemplos disso são a parte suspensa na suíte principal e a passarela cujo vão chega aos 17 metros (esta é uma viga em L que toca levemente pilares cilíndricos). Sobre o programa, Katchborian recorda que, a rigor, ele não foi definido pelo cliente e acabou se estabelecendo de maneira interativa com o escritório. Na avaliação da arquiteta Cássia Lopes Moral, responsável pela coordenação do projeto e que acompanhou o dia a dia da obra, tratou?se de uma construção complexa e de preocupação extrema com detalhes, a ponto de terem sido feitos desenhos dos nichos no concreto para a instalação do núcleo dos interruptores.

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